Síria: Autoridades anunciam recolher obrigatório em seis bairros de Alepo
- 08/01/2026
Foi decretado um "recolher obrigatório total" nos bairros de maioria curda de Ashrafieh e Sheikh Maqsoud e em quatro bairros vizinhos, "com efeito a partir desta noite e até novas ordens", de acordo com um comunicado das autoridades provinciais de Alepo.
O Exército sírio bombardeou os bairros curdos em Alepo, onde os combates continuaram até à noite, o que levou à declaração do recolher obrigatório.
O líder deste grupo minoritário sustentou que a deterioração da situação na grande cidade do norte da Síria coloca em risco as hipóteses de um acordo com o Governo em Damasco.
Estes confrontos, que obrigaram milhares de curdos a fugir, poderão assumir uma dimensão regional, com a Turquia a declarar a sua disponibilidade para intervir ao lado das autoridades sírias e Israel a tomar a defesa dos curdos.
Lojas, universidades e escolas permaneceram encerradas na segunda maior cidade da Síria, e o encerramento do aeroporto foi prolongado até sexta-feira à noite.
A violência, que já fez pelo menos 21 mortos, segundo a última contagem, é a mais grave na cidade, entre o Governo central e os curdos, uma grande minoria étnica que controla vastas áreas do nordeste da Síria.
Surge numa altura em que ambos os lados se debatem com a aplicação de um acordo assinado em março para integrar as instituições da administração autónoma curda e o braço armado, as poderosas Forças Democráticas da Síria (FDS), no novo Estado sírio.
"As tentativas de invasão de bairros curdos, no meio das negociações, minam as hipóteses de se chegar a um acordo", lamentou o comandante das FDS, Mazloum Abdi.
O Exército efetuou "fortes bombardeamentos" contra posições das FDS nos bairros de Ashrafieh e Sheikh Maqsoud, avançou a agência de notícias oficial síria SANA.
De manhã, foram dadas aos civis três horas para fugirem por dois "corredores humanitários".
As autoridades indicaram que cerca de 16 mil pessoas fugiram durante o dia, seguindo os milhares que partiram na quarta-feira.
Os combates começaram na terça-feira, rejeitando ambas as partes a responsabilidade pelo início da violência.
"Um conflito generalizado entre Damasco e as Forças Democráticas Sírias (FDS) no norte da Síria, com o potencial envolvimento da Turquia e de Israel, pode ser devastador para a estabilidade do país", afirmou o analista político Aron Lund.
Mas "ninguém quer isso" e "os atores internacionais, incluindo os Estados Unidos", vão pressionar por um cessar-fogo, acrescentou o investigador do centro Century International.
Washington afirmou estar a acompanhar a situação com "grande preocupação".
"Emitimos um apelo urgente" para que cessem as hostilidades, escreveu o enviado norte-americano para a Síria, Tom Barrack.
A violência agravou a rivalidade na Síria entre Israel e a Turquia, que disputam influência no país desde a queda do regime de Bashar al-Assad, em dezembro de 2024.
Ancara, aliada das autoridades sírias, declarou-se pronta para "apoiar" o Exército na "operação antiterrorista" contra os combatentes curdos.
A Turquia, que partilha uma fronteira de mais de 900 quilómetros com a Síria, realizou várias operações de grande escala contra as forças curdas naquele país entre 2016 e 2019.
Israel, que está a negociar um acordo de segurança com Damasco, condenou os "ataques do regime sírio" à minoria curda em Alepo e criticou "o silêncio da comunidade internacional".
Em Qamishli, a principal cidade da zona autónoma curda no nordeste do país, centenas de pessoas manifestaram-se para pedir a intervenção da comunidade internacional.
Na Turquia, centenas de pessoas concentraram-se também em Diyarbakir, a principal cidade do sudeste, de maioria curda, para condenar a ofensiva do Exército sírio.
Na véspera da visita prevista a Damasco da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, a UE pediu às partes em conflito para demonstrarem "moderação e protegerem os civis".
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