Peça "Vaga Luz" põe em palco palavras de Fiama Hasse Pais Brandão em Lisboa
- 09/01/2026
"Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar", uma frase de Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007) citada no espetáculo, dá mote ao monólogo interpretado por Cátia Terrinca, intercalado com palavras da premiada escritora, poetisa, dramaturga, tradutora e ensaísta veiculadas pelo registo fonográfico "muito antigo" da autora.
Para Cátia Terrinca, que falava à imprensa à margem de um ensaio da peça, "Vaga Luz" é "um dispositivo especulativo" que, de forma performática, procura "possibilidades para uma prática teatral afirmada por Fiama".
"Vaga Luz" descende, assim, de um primeiro objeto teatral baseado na única encenação de Fiama, "Mariana Pineda", do texto homónimo de García Lorca, que a companhia Umcoletivo "reconstruiu a partir da versão cénica resgatada ao arquivo e da partitura musical de Jorge Peixinho".
O espetáculo resulta de um projeto cuja dimensão pública começou em 2022, no São Luiz, a partir de uma investigação sobe mulheres escritoras do século XX, designado "Mil e uma noites", que conta histórias "para sobreviver numa sociedade misógina", que tem uma rubrica com o mesmo nome na Antena 2 - cujo objetivo era "construir um imaginário, uma constelação de 1001 mulheres que contassem histórias de outras mulheres que não fossem contadas por homens".
"Para sobrevivermos de uma outra maneira [...] que nos levou a pensar o que é esta dimensão do esquecimento à vivência no feminino", "o que é o esquecer uma mulher, o que é ser uma mulher esquecida e o que é que se sabe sobre uma mulher esquecida por alguém", enfatizou Terrinca.
" esquecimento, se calhar, não é só não ter livros publicados, é, se calhar, ter livros publicados e não poder republicá-los porque a editora acha que já não há interesse em fazê-lo, o esquecimento é não ser estudado, é não ter uma rua, é não ter um teatro, é não ter um nome", argumentou.
A partir daí, a estrutura teatral foi percebendo que na biografia de Fiama "havia esta promessa de ser uma mulher do teatro, que na verdade nunca se cumpriu na plenitude, que era a desejada" pela autora e que fez uma única encenação.
O cenário fixa-se na estrutura à vista da sala e no negro. Um lago, ou um espelho de água, com uma pequena ave num dos lados, uma estrutura metálica, que em determinadas alturas Cátia Terrinca vai subindo, descendo, ou carregando aos ombros e um degrau ao correr de todo o espaço cénico, completam o cenário.
Logo no início, Cátia Terrinca apaga o candelabro, ajoelha-se enquanto imagens de Fiama são projetadas na roupa que enverga ou em partes do corpo, enquanto se ouve a voz de Fiama.
Para Cátia Terrinca, "Vaga Luz" é, "por um lado, objeto de morte e reencarnação ao mesmo tempo", onde não falta a "brincadeira" de Fiama na célebre frase da "mudez imerecida dos insetos", que é trazida para cena.
"Porque as mulheres, se calhar, são uns insetos, pisam-nos como baratas, mas também, se calhar, essa mudez imerecida às vezes também ecoa no meio da noite e tem um brilho especial", frisou Cátia Terrinca.
Após o São Luiz, onde a peça estará em cena na sala Mário Viegas até 18 de janeiro, com récitas de quarta-feira a sábado, às 19:30, e, ao domingo, às 16:00, "Vaga Luz" estará em digressão no Cineteatro Joaquim de Almeida, no Montijo, dias 23 e 24 de janeiro, Centro de Artes e Espetáculos de Portalegre, 06 e 07 de fevereiro, Cine-Teatro de Torres Vedras, 20 de fevereiro, Teatro Cinema de Ponte de Sor, 05 e 06 de março, Fórum Luísa Todi, em Setúbal, em 14 de março, e Cineteatro Louletano, em 02 de maio.
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