Narcotráfico: Inspetores da Polícia Marítima denunciam falta de meios
- 24/09/2026
"Não chega que a Polícia Marítima faça o trabalho de contenção e força no mar. É imperativo que a Polícia Judiciária, que detém a competência especializada na investigação criminal desta tipologia de tráfico, coordene, oriente e atue em canal direto no teatro de operações. Sem uma engrenagem tática partilhada, continuaremos a prender no mar para libertar em terra", escreve o presidente da associação, Manuel José Serrano Faustino, numa nota enviada à comunicação social.
A Associação dos Inspetores e Chefes da Polícia Marítima refere-se à apreensão e abandono "quase diária" de Embarcações de Alta Velocidade (EAV) em águas portuguesas, as chamadas "narcolanchas", consideradas "peças fundamentais do xadrez do narcotráfico internacional que usam" a costa portuguesa como plataforma logística.
"Só a Polícia Marítima, desde janeiro de 2026, já apreendeu 17 destas EAV, mais de nove toneladas combustível, cerca de uma tonelada de haxixe e cinco toneladas de cocaína, detendo 37 suspeitos. O desfecho? Todos os suspeitos foram colocados em liberdade, com medidas de coação pouco gravosas", salienta.
A associação que representa os chefes da Polícia Marítima (PM) avança que "a raiz do problema é ainda mais profunda e prende-se com o sufoco institucional a que a PM foi submetida", sustentando que desde a criação da Autoridade Marítima Nacional (AMN), em 2002, que a PM foi "progressivamente descapitalizada".
"Sob a capa da doutrina do 'duplo uso' da Marinha, ou da 'Marinha holística', alimentou-se a ilusão militarista de que navios de guerra e militares da Armada podiam substituir polícias, ignorando as barreiras da própria Constituição, da Lei e da própria natureza das instituições", precisa.
A associação lamenta que a PM, "a única com competência e formação policial especializada para atuar em todo o cenário marítimo, continue sem um orçamento próprio, sem meios e sem homens".
Como exemplos "do colapso", a associação refere que, entre 2009 e 2015, o recrutamento "foi zero" e que "as poucas dezenas de agentes formados nos últimos anos são uma gota de água num oceano de carências", existindo apenas reforços previstos para 2027 e 2028, além da PM ter recebido "apenas quatro embarcações novas" desde 2009.
"Hoje, a estrutura da Autoridade Marítima tem mais militares da Armada em comissão de serviço do que polícias marítimos no ativo", frisa, considerando ser "urgente que o poder político conceda a esta polícia as capacidades para que desenhe uma estratégia" de combate ao crime organizado.
Nesse sentido, Associação dos Inspetores e Chefes da Polícia Marítima defende "autonomia e investimento" ao dotar-se a PM de orçamento próprio, "reforço de efetivos e meios" e uma "cooperação integrada", devendo para tal ser estabelecida "uma comunicação permanente e sem barreiras entre o sistema de vigilância costeira da GNR e a Polícia Marítima".
A associação avança que esta cooperação deve materializar-se igualmente em "ações de combate ao narcotráfico, sob a coordenação da Polícia Judiciária e a supervisão do Sistema de Segurança Interna, contando com o apoio tecnológico e a especial capacidade de vigilância costeira da Força Aérea e, naturalmente, da Marinha".
"A segurança das nossas fronteiras marítimas e a soberania do nosso território não podem continuar reféns de lacunas orçamentais ou de jogos de influência institucional", acrescenta ainda o presidente desta estrutura.
















