"Esforço da união das Esquerdas não era minha obrigação. Era de todos"
- 08/01/2026
Jorge Pinto foi um dos últimos candidatos à Presidência da República a avançar com a sua candidatura. Depois de uma tentativa falhada de agregar os candidatos à Esquerda para uma candidatura única, decidiu avançar sozinho, sendo apoiado nesta corrida pelo Livre.
Em entrevista ao Notícias ao Minuto, o candidato defende que aquilo que mais o diferencia dos seus oponentes é o facto de querer dar mais voz aos portugueses e portuguesas.
Jorge Pinto promete ser um Chefe de Estado cuja presidência vá mais além do que "tirar fotografias" e promete que com ele o diálogo e a transparência estarão sempre "em cima da mesa".
E mesmo estando, segundo as sondagens, na lista de menos favoritos, o candidato do Livre acredita que ainda está a tempo de fazer a diferença e de agregar a preferência dos muitos que ainda estão indecisos.
Apresenta a candidatura a Presidente da República para “fazer um favor à Esquerda”. O que o torna tão crítico em relação à Esquerda nestas eleições e o que o distingue dos restantes candidatos da sua ala política?
É uma das razões, mas não foi a principal. Aquilo que me distingue é tudo o que tem marcado a minha agenda e o debate nesta campanha. A minha visão é ao mesmo tempo europeísta e regionalista, sobretudo num momento que é crítico, de mudança profunda. Só olhando para estas duas dimensões, da mais local à mais global, é que conseguimos dar uma resposta ao mais importante, sem nunca esquecer o principal que é dar qualidade de vida aos portugueses e portuguesas. É esta visão mais completa que distingue a minha candidatura.
Esta é uma das razões mas não a principal. Qual é, então, a principal?
É alguém que tem uma voz diferente no debate. Que põe em cima da mesa temas de campanha que não eram falados. E veja-se o quanto já consegui marcar a agenda destas eleições com alguns temas que mais ninguém falava como o da revisão constitucional e até a regionalização. Isso prova também a importância desta candidatura.
As sondagens, no entanto, dão-no como um dos menos favoritos e o Centro de Estudos e Sondagens de Opinião chegou a referir que nenhum dos candidatos à esquerda de Seguro tinha possibilidades de aspirar a uma passagem à segunda volta. Como pensa reverter este cenário a tão pouco tempo das eleições?
É fazendo o que estou a fazer. É ir ao encontro dos portugueses, em todo o território nacional, estar junto às comunidades, como também já estive, nos arquipélagos… E isso é o trabalho que nós temos de fazer nos próximos dias, que é, no fundo, explicar as diferenças da candidatura, explicar às pessoas que estão indecisas, e são muitas, muitas mesmo, que há algo de novo, algo que é menos do mesmo, mas que é bom para elas. E isso é a minha candidatura.
Porque é que estamos perante um número tão elevado de indecisos? Tantos candidatos e não há um que consiga fazer a diferença?
Muitas pessoas só decidem mais perto do dia da eleição. Querem ouvir, querem ver o que está em cima da mesa. Não há um vencedor natural, digamos assim, nestas eleições, e com toda a probabilidade teremos uma segunda volta, coisa que já não acontecia há muitos anos, há algumas décadas.
Certamente, não há, nos outros candidatos, quem cumpra com os requisitos para que as pessoas possam dar o seu apoio. E é precisamente isso que eu também tenho tentado fazer. Ou seja, partindo de uma posição de menos notoriedade, menos conhecimento, tentar através dos debates – que foram muito importantes -, que as pessoas me conheçam, conheçam aquilo que eu defendo. Agora é tentar convencê-las a votar em mim.
Acredito que há muita desilusão e eu percebo essa desilusão, mas não quero que a desilusão seja utilizada contra os próprios iludidos e sobretudo contra o próprio paísUm dos seus objetivos é roubar eleitorado ao Chega. Como acha isso possível, sendo dois candidatos de polos tão opostos e defensores de ideias tão distintas?
As ideias são distintas. As pessoas [que votam] é que não, elas são as mesmas. São as mesmas pessoas que há três, quatro ou cinco anos votavam noutros partidos, votavam à Esquerda na sua maioria. Passámos de uma grande maioria parlamentar à Esquerda para uma grande maioria parlamentar à Direita e de extrema-direita. Ou seja, as pessoas não mudam, são as ideologias. O que acredito é que há muita desilusão e eu percebo essa desilusão, mas não quero que a desilusão seja utilizada contra os próprios iludidos e sobretudo contra o próprio país.
Quero olhar para essas pessoas para lhes dizer que essa desilusão pode ser usada para um projeto que é mais otimista, mais esperançoso. E, por isso, tento trazer para cima da mesa também a defesa do SNS, o direito ao acesso à habitação, no fundo, todas aquelas coisas que a própria Constituição já inclui, mas que nem sempre são respeitadas.
Uma das posições que mais os diferencia tem que ver com uma revisão constitucional. Entrou em campanha com a promessa de que dissolveria o Parlamento se a Direita tentasse uma “revisão drástica” da Constituição, numa posição que tem sido, aliás, criticada pelos seus opositores. Mantém-se firme nessa posição?
Cada vez mais. As notícias [do início de dezembro] sobre o chumbo do Tribunal Constitucional em relação às propostas do Governo para a Lei da Nacionalidade mostram bem a importância da Constituição. Mostra bem a importância de um Tribunal Constitucional independente que saiba defender os interesses dos portugueses, interesses esses que estão plasmados na Constituição da República Portuguesa. E aquilo de que eu falo, para não ser mal interpretado, é de uma revisão constitucional drástica, ponto número um; feita apenas a um lado do espectro político, ponto número dois - porque eu diria o mesmo de pessoas exclusivamente à Esquerda; e, ponto número três, sem ter sido assunto de campanha ou sequer discutido pelos portugueses nas legislativas. Pelo contrário, quando se alertou para essa possibilidade, o risco foi menorizado e até ironizado por outros candidatos.
Portanto, é com estas três condições que eu digo que se houver essa tentação, apenas à Direita e à extrema-direita, dissolverei a Assembleia da República para que os portugueses possam fazer-se ouvir e dar a opinião sobre uma alteração profunda àquilo que tem sido a nossa Constituição.
O que é que mais o assusta numa possível alteração ao documento?
Muitas coisas. Coisas que até já estiveram em cima da mesa como, por exemplo, deixar que o sistema fiscal português, nomeadamente o IRS, deixe de servir para reduzir as desigualdades. Será que os portugueses estão confortáveis com isso? Ou retirar o ponto que diz que as alterações à lei laboral passam obrigatoriamente por uma discussão entre patrões e trabalhadores. Será que os trabalhadores estão confortáveis com isso?
Julgo que não e, então, aí sim, isto é uma revisão drástica e quero que eles possam ter uma opinião sobre isso e ouvir-se. Caso contrário, aquilo que está em cima da mesa é uma alteração constitucional feita à Direita e à extrema-direita, o que não me deixa nada tranquilo e não deveria deixar ninguém porque o risco é mesmo real.
Tem-se referido à Lei da Nacionalidade como um “debate envenenado” desde o início. Como é que se pode reverter o “clima tóxico” que se está a gerar em Portugal contra a imigração”?
Também pela palavra, porque a função de um Presidente da República é também ser a palavra e tentar ser a voz do país, ou pelo menos uma voz da consciência do país. E se na Assembleia da República há quem, de maneira consciente ou de maneira interesseira, queira e promova este clima envenenado sobre qualquer tema, o Presidente da República pode pelo menos pela sua palavra, pela sua influência, pelo seu acesso à comunicação social, dizer que isso não é normal, que esse tom não é normal, ainda para mais com a história portuguesa, com a história de emigração portuguesa. Claro que há desafios e tem de haver regulamentação. E nós, à Esquerda, somos quem mais quer que isso aconteça, porque queremos que esses imigrantes estejam seguros, tenham contratos de trabalho, tenham casas decentes e essa proteção passa também por essa documentação.
E o Presidente da República pode e deve ter a palavra, no fundo, dizer que o normal é que haja mais abertura, é que haja mais dignidade para todos e com isso ajudar a combater também esse problema envenenado.
Enquanto Presidente da República ia obrigar a que o Estado português cumprisse com as suas obrigações para com todos os portugueses ou estrangeiros que amem o nosso paísConcorda, então, que a imigração tem de ser regulada e organizada?
Como tudo. Há alguma coisa na nossa vida que não seja regulada? Viver num Estado democrático obriga a essa regulamentação. A questão é o que é que nós quereremos dizer, e o que é que dizemos, quando falamos na regulamentação.
Quando falo de regulamentação refiro-me a assegurar que todas as pessoas que trabalham no nosso país, portuguesas ou estrangeiras, têm um contrato de trabalho. Isso é regulamentação. Assegurar que nos casos de exploração - que infelizmente assistimos no Alentejo, e que provavelmente haverá outros, noutras partes do país - haja uma autoridade para as condições do trabalho, a ACT, que consiga controlar e combater essas situações. Assegurar que as pessoas que estão legalmente no país, que descontam, que dão o seu contributo, que é cada vez maior como os números mostram, depois também tenham acesso a documentos que merecem ter de acordo com a lei portuguesa.
Quando falo de regulamentação é nessas dimensões e gostaria que se falasse mais disto, incluindo os falhanços do Estado português para com essas pessoas. Enquanto Presidente da República ia obrigar a que o Estado português cumprisse com as suas obrigações para com todos os portugueses ou estrangeiros que amem o nosso país.
Não estou certo de que a maioria dos portugueses alinhe nesse discurso [de ódio], acredito mesmo que a grande maioria dos portugueses acha que esse clima envenenado é mau e não é normal. Quero dizer a essas pessoas que não estão sozinhas. Elas abraçam a grande maioria e a outra minoria, por muito ruidosa que seja, não será a maioria do nosso país, até pela nossa história. Somos um país de acolhimento, de diversidade, pluralidade e sempre vimos nisso mais força do que fraqueza. E é a essa força que quero apelar novamente.
Mudando a agulha para o tema da reforma laboral, que também já mencionou. A UGT e a ministra do Trabalho reuniram-se a 16 de dezembro, e Luís Montenegro tem reunião agendada com a CGTP, que foi adiada para 14 de janeiro. Como olha para a greve geral que parou o país no dia 11 de dezembro?
Aquilo que me parece importante é que Portugal é relativamente cauteloso em relação a greves. Fazemos muito menos greves do que outros países europeus, e menos ainda greves gerais. A última foi há mais de 12 anos. Portanto, não é certamente de ânimo leve que as duas centrais intersindicais se juntam para uma greve geral. Mas aqui percebemos porque é que isso aconteceu, porque há um ataque, como há muitos anos não víamos, aos direitos dos trabalhadores e das suas famílias e, em paralelo, uma recusa total por parte do Governo de ter um diálogo, que se faz sempre em dois sentidos: falando e ouvindo.
O Governo tem apenas querido falar e aquilo que os sindicatos, que os trabalhadores, os muitos trabalhadores que saíram à rua, querem dizer é que também querem ser ouvidos. Querem esse diálogo. O problema é esse diálogo não ter acontecido antes da apresentação da proposta. E agora temos um Governo a correr atrás do prejuízo para perceber o que está em causa. No fundo, a grande questão é porquê? Porquê essa proposta de alteração? Porque a Economia não é flexível o suficiente? Uma Economia que já é a segunda da Europa com mais trabalhadores precários? É muito difícil de justificar. É porque essas propostas vão combater o fosso entre homens e mulheres? Os especialistas dizem que é o contrário. Que vai dar mais condições para que Portugal tenha melhores condições para as famílias terem filhos e criarem famílias? Esta a acontecer o contrário. E portanto, não me surpreende essa greve geral, não me surpreende que o Governo esteja a tentar correr atrás do prejuízo agora e que tenha de voltar à mesa de negociações porque é o que a Constituição obriga. É um processo natural.
Ao sentar-se à mesa, significa que o Governo vai ceder?
Ainda vai a tempo de nem sequer apresentar o pacote no Parlamento porque ainda nem deu entrada e há um processo longo de negociação pela frente. Há até muitos empresários que questionam a necessidade destas propostas de alteração. O Governo até agora não deu uma razão válida para que este pacote seja importante. E se não dá, acho que o Presidente da República pode e deve exigir ao Governo que explique o porquê de querer levar adiante esta proposta.
Jorge Pinto tem uma carreira quase toda lá fora, em Bruxelas. Diz-se um europeísta convicto. Que voz quer dar a Portugal na cena internacional/europeia?
Quero desde logo que Portugal seja muito transparente na sua participação num projeto europeu e quero que Portugal se afirme com uma voz liderante, num mundo que está a mudar muito rapidamente. Se nós, enquanto portugueses queremos ter uma voz autónoma e independente, só o vamos conseguir no projeto europeu. Por isso quero que Portugal influencie o projeto europeu para se continuar a afirmar como um projeto de paz, de direitos humanos, de dignidade, de direitos, de liberdades e garantias que temos construído ao longo de décadas e que muitos, fora do projeto europeu, olham com admiração. É essa a imagem que temos de transmitir para fora e é essencial que a asseguremos.
E isto está em causa porque temos líderes nacionais e de países da UE que são contrários a esta visão de diversidade, a visão de dignidade e democracia e direitos humanos. E é por isso que Portugal tem de ter um Chefe de Estado que não deixe de falar nisso e que ponha Portugal na linha da frente da liderança do projeto europeu.
Enquanto Presidente falarei com Trump, Netanyahu ou Putin. O que não farei é esconder aquilo que penso ou mudar a minha maneira de pensar em relação a essas pessoasImaginando Portugal nesse papel de liderança, qual seria a sua posição perante um eventual conflito entre a Rússia e o território europeu?
Temos obrigações já assinadas a nível europeu que nos obrigam a defesa mútua. Não teria muito a dizer, o que digo é mais o contrário. Enquanto Presidente da República, eu não autorizaria que soldados portugueses fossem arrastados para um conflito que seja ilegal aos olhos dos interesses internacionais, como aliás Jorge Sampaio não autorizou aquando da invasão ao Iraque, invasão ilegal aos olhos do direito internacional. Se houver uma invasão de um país europeu por parte da Rússia ou de outro do país, aí os representantes europeus são claros e há uma necessidade portuguesa de participar na defesa desse país. Mas espero bem que isso não aconteça.
Mas a NATO avisou recentemente que a Europa será o próximo alvo da Rússia, numa guerra de grande escala que poderá começar nos próximos 5 anos…
Há aqui dois pontos que me parecem essenciais. O primeiro é que a Europa deve apostar e assegurar a sua autonomia. Temos de conseguir criar uma comunidade europeia de defesa, que já esteve em cima da mesa do projeto europeu há décadas. Temos de assegurar a interoperabilidade entre sistemas de defesa a nível europeu. No fundo, que um sistema de defesa português tenha interoperabilidade com um sistema da Roménia, da Suécia, da Finlândia, de França, do que quer que seja, para que comecemos a gastar melhor no que diz respeito à defesa.
Note-se que o conjunto dos países europeus já gasta o triplo da Rússia em Defesa. Não é que estejamos a gastar pouco. Nós estamos é a gastar de uma maneira que é coerente entre si.
E depois, igualmente importante, é pensar no que é a Defesa em 2026, ou seja, no ano da tomada de posse do Presidente da República. Quero muito assegurar-me de que um processo eleitoral na Europa e, certamente, em Portugal, é efetivamente transparente, é efetivamente democrático, que não há necessidade de um país terceiro nesse processo eleitoral como, ao que parece, já aconteceu em outros países. E também quero aqui dizer que aqueles que em Portugal estão confortáveis com esta intromissão, com esta tentativa de divisão da Europa e dos países europeus feita por Donald Trump de um lado e Vladimir Putin do outro, são traidores ao país, são traidores aos portugueses e às portuguesas. Quem está confortável e quem alinha com um líder estrangeiro contra os próprios interesses dos seus concidadãos está a trair os próprios portugueses. E isso deve ser dito, porque é efetivamente um risco que nós temos pela frente, nomeadamente quando o National Security Strategy dos Estados Unidos diz claramente que quer ou que vê como uma ameaça o projeto europeu, no qual Portugal está.
Com Jorge Pinto como Presidente assumimos que não há diálogo com Donald Trump?
Diálogo há com toda a gente. O Presidente da República tem essa obrigação, discorde ou concorde com a visão política do seu interlocutor. Isso é evidente. Iria falar com Donald Trump, com Netanyahu, com Putin, com quem tivesse de ser. Ia fazê-lo sempre por uma razão muito simples: o interesse e defesa dos portugueses e portuguesas. É essa a missão do Presidente. O que não faria é esconder aquilo que penso ou mudar a minha maneira de pensar em relação a essas pessoas.
Não quero ter apenas a magistratura da influência, quero ter a magistratura de mobilização
É defensor da regionalização e diz que essa seria uma das suas prioridades enquanto Presidente da República. Uma posição diferente da do primeiro-ministro, Luís Montenegro, que já avisou que este não será um tema a ser tratado nesta legislatura. Como é que chegaria a consenso para fazer valer a sua posição?
Um Presidente da República não vai legislar, não vai sequer convocar o referendo que é obrigatório relativo à regionalização. Mas o Presidente da República, quando faz o juramento de tomada de posse, jura descender, cumprir e fazer cumprir a Constituição. E a Constituição diz que Portugal deve ter regiões administrativas.
A Constituição diz que a regionalização deve ser uma realidade. E um Presidente da República que não legisla, que não convoca o referendo, pode ainda assim influenciar a discussão e fazê-lo com os portugueses e as portuguesas. A minha promessa é organizar uma Assembleia Cidadã, que selecione 100 cidadãos portugueses e que eles possam discutir, pausadamente e com o apoio da Presidência da República, o processo de regionalização. Para que, no fundo, se discutam coisas como que regiões é que queremos, com que competências, com que calendários… Para que toda essa discussão sobre a regionalização seja tida com a cidadania e feita pela cidadania. E depois, sim, levar essas conclusões à Assembleia da República e fomentar essa promoção.
Repare, se essa Assembleia Cidadã tiver lugar, se a discussão com os portugueses tiver lugar, se isso estiver na comunicação social, fica mais difícil para os partidos políticos não quererem dar resposta aos cidadãos. E é precisamente esse o meu compromisso: organizar uma Assembleia Cidadã sobre a organização das regiões. A Constituição diz que as regiões devem existir. Em segundo lugar, estou muito convencido de que é algo que é bom para os portugueses, algo que é bom para o país. E, na verdade, olhando para os estudos de opinião, a grandessíssima maioria dos portugueses quer avançar com o processo de regionalização.
Compromete-se sempre ao diálogo quando houver um assunto que ache que é positivo para o país?
Ao diálogo e à mobilização. Tenho dito algumas vezes que não quero ter apenas a magistratura da influência, quero ter a magistratura de mobilização. Até cumprir com o próprio espírito da Constituição, dar mais voz, mais capacidade de participação aos portugueses.
Ainda sobre o diálogo com Luís Montenegro, o Ministério Público arquivou a averiguação preventiva sobre o caso Spinumviva, que envolve o primeiro-ministro. Como Presidente da República qual seria a sua posição perante este caso?
O Presidente da República respeita a separação de poderes, respeita a investigação. Aquilo que me parece ser possível dizer é, respeitando a necessidade e aceitando que não há ilícito legal, a questão política e ética mantém-se. Ou seja, é ético ou é eticamente aceitável que o ministro ou o primeiro-ministro tenha uma empresa familiar que trabalha e tem contratos com outras empresas privadas em relação às quais vai legislar e tomar decisões políticas? Provavelmente, não é. Há ferramentas, há mecanismos até noutros países que previnem este tipo de conflitos de interesses e que se calhar deveriam também ser trazidas para Portugal, até para evitar futuras situações análogas.
Optaria também aqui pelo diálogo com Luís Montenegro para alertá-lo para a posição que deveria tomar?
Se eu fosse Presidente da República, se eu for Presidente da República, qualquer primeiro-ministro que seja, a quem eu dê a capacidade de formar governo, irá ouvir da minha parte que deve ter essa obrigação de transparência.
Ser um Presidente mais presente é um dos slogans da sua campanha. Marcelo Rebelo de Sousa não esteve suficientemente perto dos portugueses? Onde falhou Marcelo para que o Jorge afirme que quer fazer diferente?
Estar perto não é apenas tirar fotografias com as pessoas. Estar perto é muitas vezes ir falar com as pessoas sem a comunicação social atrás, para poder ter uma conversa pausada, com calma, e perceber realmente o que as pessoas pensam. Isso faz-se também de uma maneira mais presente que não é forçosamente a das fotografias. Ser presente é também ser presente para essa ideia de mobilização de que eu falava há pouco.
Ser presente é dizer às pessoas que elas próprias podem dizer presente no que diz respeito ao futuro do nosso país. Isso é também dizer presente. É uma maneira de fazer ou de ver a Presidência da República mais interventiva mas sem com isso atropelar a Constituição a respeito da separação de poderes. Eu quero mesmo ser o Presidente presente juntamente com os portugueses, que lhes dá voz e os ouve e que lhes dá a capacidade de influenciar a política no nosso país. E conseguindo isso acho que já conseguirei ser um Presidente presente.
Foi o último a apresentar a candidatura na esperança de conseguir agregar uma resposta à Esquerda. Não tendo conseguido essa união à Esquerda, como pensa ser bem-sucedido em unir um país?
O esforço da união das Esquerdas não era a minha obrigação pessoal, evidentemente. Era uma obrigação de todos aqueles que o poderiam ter feito e que não o quiseram fazer.
E como se vê, até pelo aumento da minha notoriedade, da forma como as pessoas começam a reconhecer-me, essa candidatura se calhar era mesmo importante, era mesmo essencial. Aquilo que tenho dito também nos debates com outros candidatos é que também eles foram responsáveis pela não existência dessa candidatura agregadora, no sentido em que ao apresentarem as próprias candidaturas limitaram a possibilidade de uma candidatura única. Mas não era eu que ia ser prejudicado porque os outros decidiram avançar antes de estarem encerradas todas as possibilidades de uma candidatura única.
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